Um tasco à antiga, anos 60, onde predomina a boa comida, a simpatia e os preços acessíveis.
Luis Gonzaga Ribeiro
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05 Março 2026
8,0
Entrar na Leitaria do Estoril não é ir almoçar.
É entrar numa máquina do tempo programada algures entre 1963 e “ainda bem que ninguém mexeu nisto”.
Aquilo não é um restaurante, é um santuário.
A porta range como se estivesse zangada contigo por chegares atrasado para o rancho, o chão já viu mais caldos entornados do que a cozinha de um quartel e o cheiro… ah, o cheiro.
Não é aroma: é memória colectiva.
Aquele vapor que te embacia os óculos não é gordura, são fantasmas de mães e avós a gritar “come, que estás magro!”
No altar está ele: o Sr. Domingos, beirão de gema, patrão à moda antiga, olhar de quem já viu demasiadas modernices e decidiu que nada disso passa dali para dentro.
O homem não te recebe: avalia-te.
Se entras com ar de foodie a perguntar por opções vegan, ele não responde, faz-te sentir vergonha até ao tutano.
E depois vem a lista de milagres:
Dobrada que podia resolver conflitos internacionais.
Feijoada tão séria que devia usar gravata preta.
Mão de vaca com grão, prato que não é para fracos nem para quem tem medo de felicidade gelatinosa.
E os lendários joaquinzinhos, peixinhos fritos tão bons que, se tivessem Instagram, já tinham contrato com a Netflix.
Não há empratamentos artísticos.
Aqui a estética chama-se “taça cheia até parecer uma ofensa pessoal”.
Comer na Leitaria do Estoril é sair a cambalear como se tivesses feito um pacto com a tua infância e perdido.
E depois há o ambiente.
As mesas são pequenas porque ninguém veio ali para esticar as pernas, veio para esticar o estômago.
Os clientes falam alto, riem alto, discutem futebol como se o seleccionador estivesse escondido atrás do balcão.
E no meio de tudo isto, o Sr. Domingos a circular, a controlar porções, destinos e, possivelmente, o clima.
A Leitaria do Estoril não aparece nos guias turísticos, nem quer, é um segredo bem guardado, desses que só se revelam a quem tem coragem de pedir mão de vaca sem pestanejar.
Porque aqui não se vai jantar.
Aqui vai-se ser adoptado por uma cozinha que não aceita dietas nem desculpas.
Paulo Reffóios
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13 Janeiro 2026
10,0